CINEDROPS: O IRLANDÊS

January 10, 2020

 

 

Em sua cena final, O Irlandês é cinema em sua essência. Uma metáfora visual envolvendo uma porta entreaberta e o uso acurado da câmera encerra a aguardada superprodução da Netflix dirigida por Martin Scorsese. Antes de chegar a este desfecho cheio de simbolismo, o espectador terá de percorrer uma maratona visual de 3h30. Sim, este é o mais longo – e também o mais caro – filme de Scorsese. Mas a longa duração de O Irlandês não é inconveniente, afinal, estamos sob a batuta de um dos grandes contadores de história do cinema.

 

A cena supracitada conclui a trajetória do protagonista Frank “O irlandês” Sheeran, interpretado por um dos atores preferidos de Scorsese, Robert De Niro. Líder sindical e matador profissional da máfia, ele narra sua carreira no crime organizado em retrospecto. De início o descobrimos como reles motorista de caminhão de um frigorífico até o destino fazer seu caminho cruzar o de Russell Bufalino (Joe Pesci, outro ator recorrente na obra de Scorsese), mafioso influente que muda radicalmente sua vida.

 

Daí em diante, Scorsese desenvolve um filme menos sobre o lado glamoroso da máfia e mais um ensaio sobre amizade, lealdade e, principalmente, escolhas. Sheeran vai fazendo as suas ao longo da trama e pagando o preço por elas. Neste sentido, é elogiável a opção do diretor em transformar a personagem Peggy (Anna Paquin), filha de Sheeran, numa espécie de consciência do protagonista, martirizando-o num crescente sufocante. Em determinada cena, numa das poucas falas da personagem ao longo da produção, pergunta ao pai: “Por quê?”. É apenas uma pergunta, mas tem força avassaladora sobre Sheeran.

 

De Niro trabalha o martírio de seu personagem com refinação inequívoca, verbalizando a angustia de Sheeran nos silêncios eloquentes, no olhar. Por sinal, em O Irlandês o silêncio e a circunspecção dos personagens são elementos trabalhados com maestria por Scorsese para criar tensão e desenhar a trama aos poucos, sem pressa, para o espectador. Nota-se este comedimento também em como o cineasta desenvolve Russell Bufalino, personagem de Joe Pesci, que expressa seu lado ameaçador com o mínimo. Diferente do falastrão e violento Nick Santoro, de Cassino (1995), aqui temos um gângster velho, cansado, mas não menos temeroso por isso.

 

No lado diametralmente oposto a estes personagens contidos está o Jimmy Hoffa de Al Pacino. Sua caraterização é expansiva, histriônica e, aos poucos, o coloca em rota de colisão com a máfia da qual usufruiu para se estabelecer no poder do Teamsters, o maior sindicato dos Estados Unidos na década de 60. Esta é a saga criminosa contada com perfeccionismo e sem concessões por Scorsese, que pode incomodar alguns espectadores por não ter o dinamismo narrativo de outros filmes de sua biografia, como Os Bons Companheiros e O Lobo de Wall Street. Mas é o que ocorre quando uma obra de cinema sobrepuja pretensões comerciais e concentra-se apenas na excelência cinematográfica.

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