MARIA DO CARITÓ

November 5, 2019

Uma fábula da vida real

 

Surgido como peça teatral, Maria do Caritó fez enorme sucesso pelo país, muito por conta dos atores Lilia Cabral (Divã, 2011) e Leopoldo Pacheco (O Caseiro, 2016). E foi pelo esforço da atriz que a história agora torna-se filme.

 

Escrito por Newton Moreno (Amorteamo, 2015) - também autor da peça - e pelo experiente José Carvalho (Berenice Procura, 2018), Maria do Caritó é uma espécie de fábula moderna sobre a personagem que dá título ao filme. Maria do Caritó (Lilia Cabral) foi criada por seu pai (Sylvio Zilber), que fez uma promessa de que ela morreria virgem. Com o passar do tempo, Maria foi fazendo fama de santa milagreira, possibilitando que seu pai venda seu suor noturno - resultado da menopausa - como algo milagroso. A pseudo-santa não vê a hora de arranjar um amor e fica mais desesperada ao ter sua beatificação aprovada, pois, com isso passará a viver no claustro. É quando conhece a trupe circense liderada por Teodora (Juliana Carneiro da Cunha) e se apaixona pelo atirador de facas Anatoli (Gustavo Vaz).

 

Dirigido pelo estreante João Paulo Jabur, o filme todo mantém um clima de fábula, como em Lisbela e o Prisioneiro (Guel Arraes, 2003), Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino (respectivamente, 2005 e 2007, ambas dirigidas por Luz Fernando Carvalho). É claro que se quisermos ser realistas não conseguiremos nos envolver pela história, uma vez que a igreja católica não permite que uma pessoa viva torne-se santa. Também seria difícil acreditar que uma mulher como Maria, nos dias atuais, ainda aceitaria ser virgem - mesmo estando desesperada por sua primeira noite de amor - ou mesmo acreditaria na paixão com o ator circense como uma pré-adolescente. Se o público se dispuser a mergulhar na trama, certamente vai ter momentos de diversão e emoção.

 

Com uma direção de arte impecável de Sérgio Silveira, o filme é todo  permeado por um azul claro e tem belas imagens aéreas que, às vezes, perduram mais do que deveriam. O elenco trabalha num registro um pouco teatral, mas que combina com a proposta lúdica do filme. Leopoldo Pacheco está incrível, irreconhecível como o coronel da cidade e que quer usar da popularidade de Maria para se eleger.

 

Em tempos de "empoderamento feminino" em voga, a temática do filme pode incomodar algumas feministas, porém, seu desfecho interessante parece ter sido criado para amenizar essas críticas.

 

É um filme leve, divertido e delicioso. Merece ser visto nem que seja apenas para admirar o belíssimo trabalho do elenco e da direção de arte.

 

 

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