PACIFICADO

October 27, 2019

 

Prazeres, um Estado de Sítio - Busca pela Paz

 

Grata surpresa é ver um filme do qual você nada sabe e nada tem a esperar, mas acaba se surpreendendo por tamanha qualidade. O longa brasileiro Pacificado, é dirigido pelo estreante americano Paxton Winters e tem como um dos produtores Darren Aronofsky (Jackie, 2017). Ganhou há cerca de um mês a Concha de Ouro (Golden Shell) de Melhor Filme no 67º Festival de San Sebastián. Pacificado conta a história sobre a busca em ser alguém melhor em meio à violência e a iniquidade de um país. A cidade do Rio de Janeiro é usada apenas como alegoria para sustentar a brilhante narrativa do diretor. A qualidade do filme está na força da história, que é composta ainda por uma reveladora e poderosa intra-história, que se apresenta como o último soco no estomago por trás da realização do filme.

 

O diretor texano mudou-se para o Brasil há cerca de oito anos e passou a morar na comunidade do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, onde se passa a história do filme. A trama se concentra no retorno para a comunidade do personagem de Jaca - interpretado pelo belga naturalizado brasileiro Bukassa Kabengele -, vencedor do Silver Shell de Melhor Ator no Festival de San Sebastián, onde foi aclamado. Ex-líder da comunidade e traficante, Jaca volta para casa após cumprir 14 anos de prisão. E tudo o que ele quer é ficar fora do crime e viver em paz, mesmo em meio a todos os conflitos e problemas da comunidade. A trama se passa no período dos últimos dias dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, quando se dizia haver uma alegada trégua entre traficantes e a polícia carioca, mas esta tal pacificação era apenas ilusão.

 

Com roteiro escrito pelo próprio Paxton em parceria com Wellington Magalhães e Joseph Carter (Touro Indomável, 1980), aborda questões como dependência química, abusos e a brutalidade do trafico, mas sua ênfase está nas relações interpessoais, entre elas, a de Tati (Cassia Gil), de 13 anos, com sua mãe Andrea (Débora Nascimento), ou com o seu pai, Jaca. Enquanto Andrea se torna cada vez mais presa ao próprio vício, Jaca deseja apenas ter uma vida tranquila e abrir uma pizzaria, esta é uma das poucas coisas boas que ele trás consigo da prisão. Mas a comunidade do Morro se sente insegura e ameaçada pelo atual chefe do trafico local, interpretado pelo ator José Loreto. Por ter sido um chefe justo e hábil, os moradores recorrem à Jaca para resolver diversos problemas.

 

O retorno de Jaca também muda a vida de Tati, que deseja se aproximar e criar um vinculo com o pai que nunca conheceu. Ao mesmo tempo que lida com sua mãe, uma dependente química e com quem tem um relacionamento frio e distante, num ambiente vulnerável. Isso faz com que Jaca e Tati se aproximem, pelos mesmos motivos, o de não conseguirem se livrar da força invisível da tragedia do lugar. E assim, a tal vida pacífica que ambos querem viver parece ser cada vez mas uma ilusão, já que o ambiente não permite que se afastem daquilo que querem fugir. Mesmo que a conexão entre Tati e Jaca demore a existir, ela irá se desenvolver. O resultado final é um filme complexo que descreve a natureza igualmente complexa das relações humanas.

 

Sem se afastar da realidade das comunidades, Pacificado usa Jaca como um objeto de redenção e Tati como um símbolo de esperança, mesmo que para alcançar algo próximo da paz ambos precisem fazer escolhas difíceis. Este é um filme em que a violência é mais emocional e psicológica do que explícita, e que mostra como um ambiente disfuncional pode ser um dos fatores de influência nas escolhas. A maioria dos personagens são afetados pelos mesmos elementos, direta ou indiretamente.

 

Ao apresentar todos esses fundamentos com bastante eficácia, Pacificado nos faz refletir sobre o sacrifício diário de se equilibrar enquanto andamos na corda bamba de nossas vidas e temos de escolher entre viver dignamente e não nos tornarmos vítimas ou agressores, em qualquer circunstância. Uma obra que vale muito a pena ser vista.

 

O filme também recebeu o prêmio de melhor fotografia, para Laura Merians, no 67º Festival de San Sebastián. Será lançado no Brasil pela Fox Film do Brasil.

 

 

 

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