BRINQUEDO ASSASSINO (Child’s Play)

August 22, 2019

 

Brinquedo quebrado que funciona bem

 

Brinquedo Assassino faz parte de duas tendências hollywoodianas: a das refilmagens e a fixação nos filmes de terror dos anos 80 que, com eficiência, conseguiam juntar comédia e terror em uma mesma produção.

 

A história do boneco possuído pela alma de um assassino psicopata virou um clássico oitentista, apesar de não entrar na lista desses filmes que exploravam as características dos dois gêneros misturados e conseguiam transformar os filmes em verdadeiras montanhas russas. O humor extremamente ácido veio nas continuações do filme com o boneco ruivo cada vez mais sacana e sádico seguindo o mesmo caminho do personagem Freddy Krueger do filme A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street) do saudoso e absolutamente genial Wes Craven. Este mesmo teve uma refilmagem que não funcionou e apenas deixou saudades do original.

 

No caso de uma refilmagem as comparações são inevitáveis e nesse filme a primeira coisa que se nota é que o boneco é muito inferior ao original no quesito “design”. O boneco Buddi de agora não se parece mesmo com um produto feito por uma empresa gigantesca como a apresentada no filme. Parece mais uma cópia mal feita do original, daquelas que se compram nessas galerias repletas de quiosques que vendem mercadorias de proveniência suspeita. Apesar disso, o desenho do boneco com suas feições sem personalidade e o cabelo feio e mal colocado acaba por ajudar no desenvolvimento do personagem. Não é mais um assassino incorporado, é um aparelho que foi estragado.

 

Sai a magia e entra a tecnologia, a culpada pela tragédia que, junto com os humanos e sua cultura de violência, o transformam em um ser trágico, patético e perdido entre os conceitos de certo e errado com uma ideia totalmente deformada dos significados de amizade e fidelidade. Está aí um dos pontos positivos do filme: conseguem atualizar e desenvolver melhor a personalidade e trajetória do boneco e, sobretudo, o relacionamento e a crescente amizade da criança protagonista e seu amigo de brinquedo. Com certeza é uma refilmagem que consegue trilhar caminho próprio e, em muitos pontos, ser melhor do que o produto original.

 

O filme começa com uma introdução para explicar a fonte da bagunça toda nas instalações da multinacional Kaslan (uma onipresente empresa que produz desde um carro sem motorista até brinquedos) que se encontram no terceiro mundo. A cena parece que foi escrita pelo Trump e, sob certo olhar, tem até uma carga xenófoba. Ali está a fonte da tragédia. O boneco que carrega um certo defeito colocado pelo ódio das massas oprimidas do terceiro mundo vai acabar nas mãos do solitário filho de uma mãe divorciada que é caixa de loja e se vira para tocar a vida para a frente.

 

O menino está psicologicamente perturbado, sofre com a mudança de bairro, solidão, o fim do casamento de seus pais e acaba se apegando ao boneco que é uma maravilha da tecnologia. Ele pode controlar via wireless todos os aparelhos feitos pela Kaslan, incluindo celulares, TV's, internet, drones e até o aquecimento do apartamento. A ideia do produto é que ele seja mais do que um brinquedo, é uma inteligência artificial capaz de aprender e ajudar no dia a dia do dono. Mas o boneco está bugado e, através da observação do comportamento dos humanos e a violência da mídia, começa a tomar decisões por conta própria e resolver os problemas na faca, martelo, serra e todos os objetos cortantes que estiveram ao alcance de suas mãozinhas. Quando acontecem, as cenas de mortes são violentíssimas e acabam em uma cena que é um verdadeiro espetáculo de sangue voando para todos os lados.

 

O filme funciona muito bem na sua releitura e adaptação para os novos tempos. Consegue alternar drama, comédia e terror com equilíbrio ao apresentar uma história onde existe um suspense crescente. Há umas escorregadelas no roteiro: um policial que mora no mesmo prédio do protagonista demora muito para se tocar que alguma coisa está acontecendo. Às vezes o boneco muda seu jeito de ser e foge da proposta e há uns buracos na lógica da história, mas são bem pequenos em relação aos acertos e temos aqui um filme divertido com piadas de humor negro, cenas de tensão ótimas com violência bem orquestrada sem ser explicitamente nojentas. O brinquedo estava quebrado, mas funcionou muito bem.

 

 

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