YOMEDDINE - EM BUSCA DE UM LAR

March 8, 2019

 

A beleza dos desvalidos

 

Filmes de autoajuda - recentemente renomeados de feel good movie por conta do preconceito que a expressão original causa - fazem sucesso no mundo todo, talvez seja o gênero de maiores bilheterias, portanto, aos poucos os cineastas vem buscando mais e mais esse tipo de história. Isso causa um grande número de filmes rasos demais, apelativos demais ou melodramáticos demais. Aqui vemos uma rara exceção, um trabalho maduro, delicado e sensível, curiosamente o longa de ficção de estreia do cineasta egípcio A. B. Shawky.

 

Yomeddine - Em Busca de um Lar conta a história de Beshay (Rady Gasmal), um catador de lixo curado de hanseníase que vive numa colônia de "leprosos", como eram estigmatizados os portadores da doença. Em meio aos seus, conhece no lixão o garoto Obama (Ahmed Abdelhafiz), que - como o protagonista - foi abandonado pela família e vive numa instituição para menores. Dividindo a vontade de encontrar suas famílias, a dupla decide embarcar numa viagem de charrete cruzando o deserto até a cidade natal de Beshay.

 

O filme mostra como pequenas coisas - que não damos a mínima importância - tem enorme relevância pra esses personagens marginalizados. O delicado roteiro - assinado pelo diretor - consegue fazer com que o público se compadeça pelos personagens de forma instantânea, com a virtude de não se deixar seduzir pelo melodrama - o caminho mais fácil - e ao final uma grande lição: situações que, aparentemente, escondem maldade, crueldade, na verdade estão recheadas de amor e desprendimento próprio.

 

Outra grande virtude está na direção segura, onde A. B. Shawky consegue extrair de não atores um desempenho muito acima da média. Muita coisa é dita no olhar e pequenos gestos escondem um subtexto enorme. Não à toa, o filme foi selecionado para o prestigiadíssimo Festival de Cannes.

 

A fotografia é belíssima, mesmo com as dificuldades de se filmar em locais com tanto sol, já que a câmera ão percebe os contrastes de luz como vista humana. Também é muito interessante se ver o Egito além dos cartões postais, como as cidades pobres do interior, o deserto infinito - com todos os seus incômodos e perigos - e o encontro entre as religiões católica e muçulmana, que aqui é apresentado de maneira natural. O filme ainda brinca com a ignorância - no bom sentido - dos personagens, que veem uma pequena estrutura no deserto e pensam tratar-se de uma das pirâmides.

 

Claro que um longa-metragem como esse, se fosse feito no Brasil, imediatamente despertaria críticas clichês como "o Brasil só faz filme com gente feia" ou "filme brasileiro só tem miséria e lixo". Nesse sentido a autoajuda do filme também serve para perdermos nosso complexo de vira-lata.

 

Um belo filme, daqueles que raramente se vê, e vale o ingresso. A menos que a pessoa esteja procurando um produto enlatado, daqueles que esquecemos antes de terminarem os créditos finais.

 

 

 

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