ESPETÁCULOS TEATRAIS

Pré-estreias de peças teatrais.

MUSICAL DONA IVONE LARA - UM SORRISO NEGRO

January 01, 2020

Recriando um ícone

por Ricardo Corsetti

 

Em Dona Ivone Lara - O Musical, peça produzida por Jô Santana (Cartola - O Musical, 2017) e dirigida por Elísio Lopes Jr. (Viagens da Caixa Mágica, 2017), em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso desde 29/08, vemos uma autêntica recriação de um ícone da música e cultura popular brasileira, a compositora e cantora carioca Yvonne Lara da Costa, mais conhecida como Dona Ivone Lara. 

Para viverem no teatro esta autêntica encarnação do samba carioca, ao longo de sua longa trajetória artística e pessoal que vai desde sua juventude no início dos anos 60 até meados dos anos 80, fase de sua consagração artística, foram escaladas três atrizes: a jovem estreante Di Ribeiro, Heloísa Jorge (Caixa de Baobá, 2017, curta-metragem) e Fernanda Jacob (Pentes, 2017, espetáculo musical).

 

Apesar de contar com um competente trabalho de cenografia e iluminação em termos gerais, embora possua momentos inspirados, capazes de emocionar até mesmo o mais desinformado dos espectadores acerca de quem foi Ivone Lara; é fato também que determinadas sequências não funcionam tão bem quanto deveriam ou até poderiam, pois o humor que se tenta imprimir em diversos momentos da peça raramente funciona, soando artificial já que é evidente o esforço que os atores fazem no sentido de tentarem arrancar o riso dos espectadores a qualquer custo em vez de permitirem que tais situações de fato soem engraçadas por si só.

 

Quanto às canções compostas por Ivone Lara e selecionadas para os números musicais que permeiam a peça, Sonho Meu, Sorriso Negro, A Cigana, etc; é absolutamente inegável que já fazem parte da memória afetiva de qualquer brasileiro que possua no mínimo 40 anos. 

Entre erros e acertos, Dona Ivone Lara - O Musical, no mínimo, cumpre bem sua função no sentido de fazer justiça ao talento de uma mulher à frente de seu tempo, tanto no plano profissional quanto pessoal que, conforme ele mesmo costumava dizer, jamais aceitava que alguém lhe dissesse qual deveria ser o seu lugar.

SERVIÇO

Teatro Sérgio Cardoso

Rua Rui Barbosa, 153 - Bela Vista - São Paulo

Quinta, sexta e sábado às 20h

Domingo às 17h (de R$20,00 a R$75,00) 

Classificação Indicativa: 12 anos

​A ESCOLA DE ROCK - O Musical

August 15, 2019

É de encher os olhos!

por Jhuliano Castilho
 

Baseado no filme homônimo de 2003, o moderno espetáculo escrito por Mike Whiteem e estrelado por Jack Black, chegou à Broadway em 2015, percorreu alguns países e desembarca no Brasil, sendo pela primeira vez falado no idioma local.

 

A história contada pelo musical, gira em torno de Dewey Finn, um roqueiro que após perder seu emprego numa loja de discos e ser demitido por sua própria banda decide se passar por seu amigo e colega de apartamento Ned Schneebly, um dedicado e tradicional professor, pra ter condições de continuar pagando seu aluguel.

 

Durante as aulas de canto na escola onde passa a lecionar no lugar do amigo, Dewey acaba descobrindo o potencial de seus alunos para a música e decide formar uma banda com eles

.

Buscando a alcançar a tão almejada fama e ao mesmo tempo se vingar de seus ex-colegas de banda pelos quais foi demitido, ele resolve inscrever seus alunos numa batalha de bandas.

 

Mas nós do "Luz, Câmera, Animação" fomos convidados para a Premiere e pudemos ver um grande espetáculo.

Sim, espetáculo é a palavra certa pra descrever a obra. Cenários grandiosos que são trocados a cada cena, hora descendo do teto, hora sendo empurrados pelas laterais ou saindo do chão e sendo erguidos por elevadores.

Um show de luzes, figurinos impecáveis e crianças talentosíssimas que dançam, cantam e tocam instrumentos com maestria, tudo realmente ao vivo.

Para encarnar o protagonista "rock n' roll" foi escolhido o ator Arthur Berges, que já havia participado de musicais como: Urinal, Rent e Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812.

Há uma real entrega do ator ao personagem que nos deixa maravilhados, não se limitando a ser uma mera cópia de Jack Black   (protagonista da versão cinematográfica), mas sim dando estilo próprio ao personagem.

Vivendo a diretora da escola, está a atriz Sara Sarres, que já estrelou grandes musicais, tais como as primeiras montagens de Le Misérables, Godspell e O Fantasma da Ópera, além de West Side Story e Shrek.

Dando vida a personagem Ned temos Cleto Baccic (Mamma Mia, Cats, A Madrinha Embriagada, O Homem de La Mancha, Annie), como par romântico de Thais Piza (We Will Rock You, Cinderella - O Musical da Broadway, Peter Pan - O Musical da Broadway).

Quanto ao elenco infantil, os alunos são representados (em alternância) por mais de 40 atores mirins, dando vida aos alunos. Obviamente, não vou listar todo esse maravilhoso elenco infantil, mas, sem dúvida, eles são os grandes responsáveis pelo grandioso espetáculo, com sua vozes afinadas e danças frenéticas, extremamente bem coreografadas por Philip Thomas.

Completam o elenco adulto, Tchello Gasparini (cover de Dewey), Jana Amorim (cover de Rosalie Mullins), Clarty Galvão, Keila Bueno, Laura Carolinah, Leilane Teles, Luciana Artusi...

 

Ao todo são 60 atores em cena e uma equipe composta por mais de 200 pessoas, responsáveis, nos bastidores, por fazer tudo funcionar com perfeição.

Com libreto de Julian Fellowes, letras de Glenn Slater, o musical tem versões assinadas por Mariana Elizabetsky e Victor Muletalher. Direção original de Laurence Connor, direção geral de Mariano Detry, direção associada de Floriano Nogueira e direção musical de Daniel Rocha.

SERVIÇO

Teatro Santander

Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 - Vila Nova Conceição - São Paulo

Quinta e sexta-Feira às 20:30, Sábado e Domingo às 15:00 e 18:30. (de R$ 37,50 a R$ 155) 

Classificação Livre

Até 1 de setembro

PIPPIN

July 19, 2019

Para quem gosta de musical é um prato cheio

por Beto Besant

Estreou na capital paulista o novo espetáculo da consagrada dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, o musical Pippin. Encenado pela primeira vez na Broadway em 1972, Pippin foi o trampolim para que seu letrista Stephen Schwartz fizesse uma carreira de enorme sucesso, acumulando prêmios como Oscar, Grammy, Emmy e Tony, além de uma estrela no Hall of Fame. No início dos anos 70, o musical chamou atenção da crítica ao apresentar metalinguagem - teatro dentro do teatro - e acumulou cinco prêmios Tony.

Em sua 43ª parceria, Möeller e Botelho compraram os direitos da peça em 2013, ocasião em que foi feita uma nova montagem do espetáculo na Broadway. A peça conta a fábula de Pippin (João Felipe Saldanha), o jovem filho do rei Carlos Magno (Fernando Patau) que está em busca do real significado da vida. Na história, eles são uma trupe teatral conduzida e apresentada por Totia Meireles.

Com um belo cenário e figurinos caprichados, Pippin fez grande sucesso no Rio de Janeiro e chega em São Paulo desfalcado de alguns de seus grandes nomes, como Jonas Bloch, Nicete Bruno e Adriana Garambone. Com um texto que lembra muito ao clássico Hamlet (de Willian Shakespeare), a adaptação brasileira tenta associar a história à recente política brasileira visando a identificação do público, o que pode ser o segredo do sucesso. Particularmente, me pareceu um caminho fácil e cômodo, por vezes equivocado e caindo em clichês que mais lembram memes de internet.

Em certo momento, o rei diz: “O pôr do sol parece com o nascer do sol, mas é diferente”. Esta frase totalmente nonsense é um alívio cômico dos mais inspirados da peça e lembra muito os discursos vazios de uma ex-presidente da república.

Outro grande problema de Pippin é apelar - em alguns momentos - para palavrões. Um recurso que normalmente traz o riso fácil e gratuito. As letras das músicas são bem escritas, mas as melodias não são do tipo "chiclete", aquelas que ficamos cantarolando por dias a fio. O espetáculo é muito bonito, o elenco está bem, mas falta carisma. Os destaques positivos ficam para Fernando Patau, Totia Meireles e o menino Pedro Sousa, que interpreta Theo, o filho do segundo casamento do rei.

Sem dúvida, o grande destaque é a orquestra, que executa com maestria a sofisticada trilha-sonora da peça.

 

Confesso não ser chegado a musicais - seja no teatro ou cinema -, de todo jeito, me pareceu um espetáculo longo e enfadonho. Indicado apenas a quem goste muito do gênero.

SERVIÇO

Teatro Faap

Rua Alagoas, 903, Higienópolis (tel.: 3662-7233)

Sextas às 21h, sábados às 17h e 21h e domingos às 15h e 19h (de R$ 75 a R$ 120) 

Até 18 de agosto

AMOR PROFANO

October 17, 2018

A capital paulista recebe o novo espetáculo teatral da atriz Vivianne Pasmanter: o romance Amor Profano. Escrito por Motti Lerner e dirigido por Einat Falbel - ambos israelenses -, conta a história de Hannah (Pasmanter) e Zvi (Marcello Airoldi), que foi casado em Jerusalém, mas acabou se separando devido aos costumes nada ortodoxos dele - que recusa-se a manter a tradição judaica - ao contrário de Hannah, que segue os costumes com de forma sagrada. Um romance do filho dele com a filha dela os aproxima novamente, deixando claro rapidamente que o amor deles só estava adormecido.

O texto é muito interessante, pois consegue alternar momentos onde Zvi tenta se reaproximar de Hannah com momentos em que acontece o inverso. Não apresenta nenhuma novidade nem grande reviravolta, mas a peça flui de forma natural, cadenciada.

A direção é bastante delicada e acerta no tom de interpretação de Pasmanter, que inicia o espetáculo falando e se comportando com muita rispidez. Hannah não é capaz de olhar para Zvi e muito menos tocá-lo. Um simples objeto que tenha que passar às mãos dele é colocado sobre a mesa para evitar qualquer tipo de contato. Da mesma forma, seu tom de voz é ríspido e enérgico. Quase masculinizado. A boa interpretação da protagonista permite que sua mudança de postura perante Zvi flua de forma precisa e convincente. Airoldi também está muito bem apresentando uma interpretação contida, que faz com que o público acredite naquele amor sufocado.

A forma pouco naturalista com que os atores falam às vezes soa um pouco artificial - talvez devido ao fato da diretora não ser brasileira -, porém não compromete o envolvimento do público com a história.

O belo cenário apresenta a moradia da protagonista e depois é transformado para dar lugar ao apartamento de Zvi. Ao fundo há uma espécie de parede ou muro que passa a falsa impressão de que em algum momento os personagens irão até o Muro das Lamentações, o que não acontece. A cenografia ainda permite que o espetáculo inicie com a projeção de imagens das ruas de Jerusalém enquanto apresenta a ficha técnica, como num filme.

Não é um espetáculo inovador, nem tem grandes reviravoltas. É apenas uma bonita história de amor em conflito bem escrito, produzido e interpretado. É indicado mais para os amantes deste tipo de história.

OS VILÕES DE SHAKESPEARE

February 26, 2018

Uma visão realista dos maiores vilões da dramaturgia

por Beto Besant

Após uma série de apresentações no Rio de Janeiro e Curitiba, o ator Marcelo Serrado (Crô - o filme, 2013) trás à capital paulista seu monólogo Os Vilões de Shakespeare. Com experiência em dezenas de novelas, filmes e espetáculos teatrais, o ator ainda utiliza de sua verve debochada - desenvolvida com apresentações de Stand Up Comedy - para acentuar o texto ácido e contemporâneo.

Escrito e interpretado originalmente pelo dramaturgo inglês Steven Berkoff (O Turista, 2011) - no ano de 1998 -,  foi adaptado pelo poea, letrista, dramaturgo e roteirista Geraldo Carneiro, especialista em Shakespeare. A direção seria feita - originalmente - por José Wilker (1944 - 2014), que apresentou o texto a Serrado. Porém, com sua morte, ficou a cargo de Sergio Módena (Ricardo III).

No espetáculo, o ator é um conferencista que dá palestras sobre os famosos vilões. Com extrema desenvoltura, consegue alternar entre a interpretação de personagens densos e trágicos com o palestrante que os observa e comenta de fora da situação. A direção de Módena é competente e consegue a difícil façanha de apresentar um monólogo - sobre textos clássicos - de forma coloquial e descontraída, sem nunca, jamais, entediar o público.

O diretor utiliza de projeções de vídeos que ajudam a compor o simples cenário - uma mesinha e uma cadeira - onde são projetadas chamas, fumaças, fotos dos personagens e vídeos clássicos, como o do ator Laurence Olivier (1907 - 1989) - considerado o maior especialista no dramaturgo inglês - interpretando um de seus personagens.

Com muita desenvoltura, Serrado tem abertura para interagir com o público. O momento máximo é aquele onde os presentes são questionados sobre que sem seriam os atuais vilões da nossa sociedade.

Após a estreia, o ator e o diretor fizeram um bate-papo com o publico, onde revelaram que a forma popular de apresentar os personagens deve-se a que os espetáculos do dramaturgo inglês - tão sacralizados pela classe artística - originalmente eram populares e de grande sucesso.

Uma bela programação para conhecer mais os vilões de Shakespeare e ter uma real noção do talento de Marcelo Serrado. E que cabe, na medida certa, para que ele possa viajar o país e assim todos tenham acesso a este delicioso espetáculo.

SERVIÇO:

Teatro Eva Herz - Conjunto Nacional

Av. Paulista, 2073 - Bela Vista - São Paulo/SP
Sábados às 19h e 21h, domingos às 19h.
Até 29 de abril de 2018 - classificação: 12 anos

A VISITA DA VELHA SENHORA

January 31, 2018

Um belo espetáculo com ingressos gratuitos

por Beto Besant

A consagrada atriz Denise Fraga e seu marido, o diretor Luiz Villaça, apresentam voltam a São Paulo com o espetáculo A Visita da Velha Senhora.

A peça - escrita por Friederich Dürrenmatt (1921 - 1990) - conta a história da falida cidade de Güllen, cujos moradores aguardam a visita de Claire Zahanassian (Denise Fraga), uma mulher milionária que promete lhes tirar da miséria. Diz que irá doar um bilhão à cidade se alguém matar Alfred Krank (Tuca Andrada), que lhe abandonou grávida na juventude em troca de um casamento de conveniência.

Escrita em 1955, não tem como escapar do "lugar comum" de quanto a peça e atual. Afinal, nada mais contemporâneo do que discutir a corrupção humana, o quanto as pessoas deixam seus princípios e se vendem ao verem a possibilidade de ganharem um bom dinheiro. Assim como não há nada mais atual do que corruptos que se colocam como vítimas e tentam inverter a situação de quem está errado.

O preparo vocal da protagonista é deslumbrante, em diversos momentos canta em estilo lírico. Além disso, consegue extrair o humor e ironia da situação - que também poderia ter sido apresentada como um drama - na medida certa. Com um elenco enorme - que além de Denise e Tuca tem mais dez atores - o grande destaque masculino é Ary França, que interpreta dois personagens simultaneamente. Sua concentração para não perder o texto é exigida ao extremo, como um ventríloco que precisa estar muito trainado para saber quando fazer sua própria voz e a do boneco.

A direção de Luiz Villaça tem o mérito de conseguir muito ritmo e interação com um elenco tão grande, prendendo a atenção do público, que fica apreensivo aguardando o desfecho de uma situação tão insólita como a narrada.

Uma excelente oportunidade de se assistir uma um belo espetáculo, com grandes atores, ótimo texto, numa produção esmerada, de forma gratuita. Infelizmente, em curtíssima temporada.

SERVIÇO:

Teatro do SESI

Av. Paulista, 1313 – Bela Vista - São Paulo/SP
Quartas a sábados às 20h e domingos às 19h
De 24 de janeiro a 18 de fevereiro de 2018

Entrada gratuita
Reservas antecipadas de ingressos online pelo portal www.sesisp.org.br/meu-sesi
Para apresentações entre dias 1º e 15, reservas divulgadas na internet a partir do dia 25 do mês anterior.
Para apresentações entre dias 16 e 31, reservas divulgadas na internet a partir do dia 10 do mesmo mês.

Ingressos remanescentes são distribuídos por sessão, no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria (quarta a sábado, das 13h às 20h; domingo, das 11h às 20h).

FELIZ POR NADA

January 30, 2018

Onde nasce a amizade?

por Renato Jabor

Volta a São Paulo o espetáculo Feliz Por Nada. O espetáculo fala sobre a amizade que nasce entre Laura (Cristiana Oliveira) e Juliana (Regiane Cesnique), e a maior prova de afeto de um amigo é desejar o crescimento e realização pessoal do outro. É isso que Juliana faz por Laura, resgata a essência feminina muitas vezes perdida por mulheres que vivem uma falsa sensação de felicidade por sacrificar seus próprios desejos em virtude do casamento. A peripécia do enredo se dá quando Laura apresenta Juliana a seu marido Joca (Danilo Sacramento) e descobre que ele e a melhor amiga já foram namorados.

 

O texto escrito por Regiana Antonini - adaptado da obra de Matha Medeiros - é leve, simples e coloquial, retrata o universo feminino com muito lirismo, leveza e humor. Uma observação sobre a direção de Ernesto Piccolo: Sacramento interpreta dois personagens. Um corretor argentino - e essa é a única cena do personagem - e depois Joca. Mesmo em uma linguagem realista o teatro tem licença poética para que um ator dobre papéis, mas para os românticos como eu, é o tipo de deslize que incomoda.

O ator esbanja saúde e carisma, dentro e fora do palco. Consegue personificar o típico homem machista, diante de uma D.R. (discussão de relação) com a mulher, resume tudo numa crise de TPM (tensão pré-menstrual) dela, e por ser bem-sucedido acredita que a solução para os problemas é material. 

A Laura de Cristiana Oliveira está casada há 15 anos, tem duas filhas e devotada ao casamento. Quanta infelicidade as mulheres aguentam e por quê? Por que as mulheres mantêm relacionamentos difíceis? Essas questões podem ser respondidas ao notar a evolução na performance da atriz, que compõe de forma visceral sua personagem, da cabeça aos pés. A riqueza de detalhes da caracterização revela toda a insegurança e infelicidade que uma mulher pode sofrer numa relação falida. 
 

A Juliana de Regiane Cesnique é solteira, mãe de uma filha e com três casamentos no passado. Com segurança ela desempenha o contraponto de Laura, cheia de projetos e planos. Toda mulher precisa de uma amiga como Juliana, que inspira confiança, desejo e amor próprio.

O ponto alto do espetáculo é o momento em que Laura e Juliana sentam-se na frente do palco, dividindo com o público uma verdade mundana: o beijo é o termômetro da paixão. 
 

Assistir Feliz Por Nada é como dar aqueles beijos de namorados em pé: você sai de lá querendo mais, e mais apaixonado fica pelos seus amigos cúmplices.

SERVIÇO:

Teatro Gazeta

Av. Paulista, 900 – Perdizes - São Paulo/SP
Sextas às 21h, sábados às 22h e domingos às 18h
De 12 de janeiro a 25 de fevereiro de 2018

UM BONDE CHAMADO DESEJO

December 22, 2019

Uma avalanche chamada Maria Luísa Mendonça

por Beto Besant

Volta à capital paulista o premiado espetáculo Um Bonde Chamado Desejo. Escrito por Tennessee Williams (1911 - 1983), teve sua primeira montagem em 1947 - na Broadway - dirigida pelo lendário cineasta Elia Kazan (1909 - 2003), que apresentava o novato Marlon Brando (1942 - 2004) e Jessica Tandy (1909 - 1994). Dois anos depois, sir Laurence Olivier (1907 - 1989) dirigiu a montagem inglesa tendo Vivian Leigh (1913 - 1967) no elenco.

Em 1951, Kazan lança sua versão cinematográfica Uma Rua Chamada Pecado, com Brando e Leigh nos papéis principais. O filme levou 4 Oscars: Melhor Atriz (Vivien Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Melhor Ator Coadjuvante (Karl Malden) e Melhor Direção de Arte.

Após 12 anos da última montagem brasileira, o diretor Rafael Gomes decidiu fazer pessoalmente a tradução do texto para apresentá-lo a uma geração que ainda não tinha assistido ao espetáculo.

Na trama, Blanche Dubois (Maria Luisa Mendonça) chega à cidade em que sua irmã Stella (Virgínia Buckowski) vive num casamento acomodado com o rústico Stanley (Eduardo Moscovis). A tensão sexual entre eles é nítida, mas Blanche tenta disfarçar seduzindo todos os homens que pode. A vida pacata do casal entre num redemoinho até que tudo não possa voltar ao que era antes.

Sem medo de errar, a protagonista é a principal responsável por esse belíssimo espetáculo. Maria Luisa encarna a personagem como ninguém. Explora suas nuances como raramente se vê, oscilando da mulher sedutora e impulsiva a uma pessoa desequilibrada e amargurada. Não por acaso foi premiada como melhor atriz no Prêmio Shell, APCA, Aplauso Brasil e Qualidade Brasil.

Moscovis encontra o registro adequado ao personagem rústico e viril, construindo um Stanley verossímil a ponto de conseguir ser violento e minutos depois extremamente passional e sedutor. Também foi escolhido Melhor Ator no Prêmio Qualidade Brasil.

 

A escolha de Virgínia Buckowski para o papel de irmão da protagonista é acertado, uma vez que - além da semelhança física com Maria Luisa Mendonça - consegue incorporar a mulher pacata do interior, conformada com sua vida simples e rotineira, cujo marido trabalha muito, bebe muito, joga semanalmente com os amigos, e ainda assim lhe ama assiduamente. No elenco ainda as participações eficientes de Donizeti Mazonas, Fabrício Licursi, Nana Yazbek e Davi Novaes.

Em cartaz desde 2015, a nova montagem de Um Bonde Chamado Desejo mostra que o tempo trouxe a completa integração do elenco, que além da sintonia apresentada no palco, se entrosam muito bem nos momentos em que precisam se ajudar na troca de figurinos, ao precisarem manipular o compacto cenário e até mesmo utilizando de refletores do palco para iluminarem os colegas.

O fato de ser apresentada atualmente em teatro de arena torna o espetáculo ainda mais saboroso, uma vez que - mesmo fora de cena - os atores nunca saem do palco. É interessantíssimo ver como eles se organizam para a troca de figurinos, cenário etc.

O cenário de André Cortez é minimalista e eficaz, uma vez que apresenta um travelling circular (trilho utilizado no cinema para fazer movimentos de câmera) utilizado de diversas formas criativas, como se fosse o trilho do trem que traz à personagem à cidade, por exemplo. Ao centro do palco, um pequeno caixote que funciona como uma alusão ao apartamento do casal, como também a um chiqueiro de porcos. O objeto possui vários bancos, que retirados do local funcionam como uma mesa de bar, coberto com uma toalha vira uma banheira, ou, numa outra configuração, torna-se uma cama. Não à toa, foi premiado como Melhor Cenário com o Prêmio Shell.

Apesar de utilizar-se de uma linguagem mais rebuscada, tão comum no teatro, as belas interpretações, o ótimo cenário e a direção impecável, apoiados num ótimo texto, fazem de Um Bonde Chamado Desejo um espetáculo imperdível.

SERVIÇO:

Teatro Tucarena

Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes - São Paulo/SP
Sextas e sábados às 21h e domingos às 18h
De 19 de janeiro a 4 de março de 2018 

CÉUS

October 30, 2017

Para que o futuro não seja apenas uma ilusão

por Felipe Ferracioli

A palavra ainda tem a potência de rasgar a realidade para instaurar o impasse. E o teatro serve para isso, mostrar que o diálogo é transgressor, provocador, muda atitudes, pensamentos, perplexidades, pontos de vista. Muda o que tiver de mudar para o próximo conflito. Esse movimento é incessante.

Céus é a última parte do quarteto de peças compostas por Litoral, Incêndios e Florestas, denominado Sangue das Promessas, do autor e encenador contemporâneo libanês Wajdi Mouawad. Sua estrutura dramatúrgica prioriza o diálogo em praticamente apenas uma locação, uma sala de trabalho com analistas em criptografia que tentam decodificar um enigma hermético e poético, pista para um ataque terrorista iminente.

Cinco personagens e seus conflitos internos que reverberam no contato com o outro. Eles têm noção do que fazem e realmente por quê fazem o que fazem? O grande dilema da alienação contemporânea. A simples reprodução de uma ordem sem saber o que ela significa. A existência colocada em xeque apenas quando se depara com um possível limite.

O texto - aliado à encenação de Aderbal Freire Filho - trabalha o suspense e a poesia, o que causa uma curiosidade e refresco às peças que seguem uma dramaturgia mais amarrada em sucessão de acontecimentos. A tensão cresce pela fala e pelo atordoamento das personagens, não apenas no palco, mas transitam também e exploram com certa timidez o espaço da plateia. Dentre os elementos narrativos como o uso de projeções, vídeos, trilha sonora, os atores ficam praticamente o tempo todo em cima do palco, com raras saídas.

Uma peça com um ritmo lento, mas intrigante porque seu conteúdo exige esta dilatação. Para ver e rever no intuito de aprofundar a relação do seu conteúdo com as práticas passivas de nossa sociedade, que não reconhece o que faz e os problemas, mesmo que eles estejam escancarados diariamente. O distanciamento histórico precisa ser superado para que o futuro não seja apenas uma ilusão.

SERVIÇO:

Teatro Vivo

Av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460 - Morumbi - São Paulo/SP
Sextas às 20h, sábados às 21h e domingos às 18h
De 27 de outubro a 10 de dezembro de 2017

A LÍNGUA EM PEDAÇOS

October 16, 2017

Teresa D´'Ávila - a santa revolucionária

por Beto Besant

Reestreou na capital paulista o espetáculo A Língua em Pedaços - do espanhol Juan Mayorga - após temporadas em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e diversos CEU'S (Centro Educacional Unificado) pela cidade de São Paulo. Dirigido por Elias Andreato, trás no elenco a atriz Ana Cecília Costa e agora o ator Joca Andreazza, que substitui Marco Antônio Pâmio.

O texto é baseado na autobiografia de Santa Teresa d'Ávila intitulado O Livro da Vida, de 1565.

Premiado pelo Ministério de Cultura espanhol, o texto trás um inquisidor (Andreazza) que vai até o mosteiro onde vive a monja carmelita Teresa d´Ávila (Ana Cecília) investigar as experiências místicas que ela alegar ter vivido. A santa - que celebra 500 anos de seu nascimento e inaugurou dezessete conventos de Carmelitas Descalças em toda a Espanha - tem sua vocação questionada pelo inquisidor, que a acusa de subversão e heresia. O embate e levado até as últimas consequências, deixando uma leve insinuação de tensão sexual entre ambos.

A direção de Andreato é precisa - ainda que não estejamos acostumados à uma linguagem mais formal que emula o português arcaico - cujo mérito maior é o de jamais tomar partido de um dos personagens. Durante todo o tempo, somos levados a questionar quem está certo na discussão.

De forma muito interessante, o espetáculo desmitifica nossa visão de uma santa, a de que eram pessoas com qualidades superiores, sempre certas de suas vocações. Que não tinham paixões e arroubos de humanidade. A peça mostra que ela também se questionava sobre seus dotes religiosos. O mesmo se dá com o personagem do inquisidor, que apesar da função quase de um carrasco, questiona-se o tempo todo sobre o que diz e o que ouve.

A trilha-sonora de Daniel Maia é interessante, mas por vezes muito marcada para dividir as cenas. O cenário de Fábio Namatame é simples mas muito eficiente. Retrata a cozinha do mosteiro, com apenas uma mesa e quatro bancos de madeira, onde a protagonista abre o espetáculo preparando uma massa de pão.

E interessante quando o teatro utiliza de elementos reais para contar a história, em vez de utilizar da imaginação do espetador. Isso acontece tanto no caso da massa de pão quanto em dado momento em que o inquisidor joga água no rosto da santa.

Ana Cecília - idealizadora do projeto - tem a força no olhar que o personagem necessita, algo que é mais visto em cinema do que teatro. Já Joca Andreazza merece destaque pela sua voz forte e marcante, que caem perfeitamente com o papel.

Uma bela experiência teatral que dá nova chance ao expectador paulista de poder prestigiar.

SERVIÇO:

Teatro Eva Herz - Conjunto Nacional

Av. Paulista, 2073 - Bela Vista - São Paulo/SP
Somente aos sábados às 18h
Até 25 de novembro de 2017

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